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“Um Domingo na Laginha” por César Augusto Medina Fortes

Um Domingo na Laginha

César Augusto Medina Fortes

Como todos os domingos fazíamos, eu e os meus irmãos, levantamos cedo e fomos à igreja. Depois da igreja, almoçamos e começamos logo a preparar porque a tarde era sempre reservada para nós, as crianças de Ribeira Bote e ilha de Madeira, para irmos á praia da Laginha. Eu sabia que não era a coisa certa a fazer no dia do Senhor, por isso, ia escondido da minha mãe, por que se soubesse iria brigar comigo.

Saí a procura dos meus amigos. Não havia fronteiras e nem proibições. Entrávamos na porta da frente de nhá Maria de Valentim e saíamos no portão, passando assim para Ilha de Madeira para convidar os nossos colegas Johny de Carola, Aristides, Tino, Djoy e outros. Jair de Fátima sempre ficava com vontade de ir connosco, mas a mãe raramente o deixava. Ivone de Nhá Ciza, estava sempre disposta e ia na linha da frente.

Depois de avisar os amigos na Ilha da Madeira, era hora de passar para a rua 10. Nós, para encurtar o caminho entrávamos logo no portão da casa de Nhá Sabina e saíamos na porta de frente, que dava direto na rua 10. As nossas famílias eram todas amigas e podíamos entrar na casa uns dos outros sem problemas, desde que cumprimentássemos com educação. Educação, era coisa que não nos faltava, porque se faltasse, também os adultos tinham autorização dos nossos pais, de nos repreender e nós logo acatávamos as suas ordens.

Na rua 10, chamávamos, o Paulo do senhor Jon Bloco, o Rogério, Chimaz, Papai, Livramente, Nelsa d’Ya, Valdemar de dona Alice, o meu irmão Joselito, os meus primos, os gémeos Paulo e Jorge, Sílvio, também o Renato e Dixa de Poia, Djão de dona Linda, Jair, Gui e Paulo de Nhá Mari de Lurdes, Nelson, Zé e Didi de dona Montinha, Zé de dona Rosário, Ligim de dona Eduina, Ligim de dona Polina, Johny de dona Teresinha, Didi de dona Olívia e muitos outros, pois, o grupo era grande e aumentava a medida que passávamos na porta de uma família e íamos assobiando. Nós tínhamos um assobio como código e bastava um de nós dar o assobio, que o outro respondia de lá dentro de casa e rapidamente abria a porta. Todos nós juntávamos na rua e víamos se alguém estava a faltar, para podermos rumar a praia da Laginha. O nosso trajeto era Alto de Sentina, Alto de Mira-mar, Praça Nova, Laginha direto.

No caminho fazíamos as brincadeiras que todas as crianças fazem e empurrar era uma delas. Perto do restaurante Sodade, alguém se lembrou de dar um empurrão no Jorge de Mana e ele foi com tanta força que bateu num portão. O portão abriu-se e como a casa tinha alguns degraus, o Jorge continuou a rolar escada abaixo até parar no meio do quintal da casa. A dona da casa assustou-se com o barulho e foi logo ajudar o Jorge a se levantar, perguntando-lhe se estava tudo bem. Jorge de Mana, como era esperto, ele disse logo que estava a sentir que iria desmaiar-se em breve. A coitada da senhora foi rapidamente e trouxe-lhe um pão com doce e um copo de sumo. O Jorge comeu e lambeu os lábios. E de lá de fora o Zé de nhá Montinha retorquiu logo: – “Caramba. O Jorge tem sorte até numa queda. Sinceramente”.

E lá continuamos a nossa caminhada para a Laginha. Passamos na fábrica de Supirinha, onde tinha um refrigerante, que para nós, era o melhor do mundo. Perto da Escola Técnica, encontramos um tamareira carregadinha com tâmaras amarelinhas, doces, prontas para serem consumidas por nós. E aí entrava os nossos atiradores de serviço, Valdemar e Tchitchi. Apanhavam pedras e atiravam para os cachos e nós os mais novos, apanhávamos o que caia no chão e distribuíamos para todos. Dali, avistávamos o lindo mar da Laginha. Mas andar de ali até chegar a praia, era um calvário. O alcatrão parecia que derretia-se com o sol quente e nós com os pés descalços íamos sempre a saltar, porque queimava muito. Tinha vez, que alguns de nós ficávamos com bolhas na sola dos pés.


Por fim, chegávamos à tão desejada praia da Laginha. Todos corriam para a água. Fazíamos concurso de mergulho e de salto nas ondas. Depois íamos até o trampolim na Pedra de Doca. Fazíamos filas e todos saltavam e quando mergulhávamos, era obrigatório passar no túnel por debaixo do trampolim. O João quase sempre era o primeiro a passar e os outros o seguiam. E quando saíamos do outro lado, chegávamos quase sem fôlego, mas felizes. Lembro-me, que certa vez, todos nós atravessámos o túnel, mas quando subimos, estava a faltar alguém, o Nelsa d’Ya. Valdemar rapidamente mergulhou e foi buscá-lo. Ele tinha ficado entalado numa parte estreita do túnel, pois, Nelsa d’Ya era corpulento.


Depois de termos ultrapassado o susto e com o Nelsa d’Ya em terra firme, começamos a rir até cair na areia. Como crianças, achamos aquilo com muita piada. Sempre as coisas engraçadas aconteciam era com o Nelsa d’Ya. Depois de ter cuspido alguma água, ele logo começou a dar saltos mortais, coisa que ele era muito bom a fazer.


Nesse meio tempo, Kunhanha teve a maluca ideia de subirmos na casinha de captação de água do mar da Electra e dali de cima de uma torre, fazermos saltos para a água. Subir não foi difícil. Os mais velhos foram ajudando os mais novos até que todos conseguiram atingir o terraço do edifício, que deve ter por aí, os seus dez metros de altura. De lá de cima, contemplamos toda a praia da Laginha, cheia de gente. Pareciam formiguinhas estendidas na praia. Pudemos ver toda a baia do Mindelo com o seu Porto Grande e alguns navios descarregando milho de segunda, vindo dos Estados Unidos e que iam diretamente para os silos da MOAVE que depois era distribuída para a população para escapar da fome. Sentíamos o sol forte na nossa pele, mas não arredávamos pé daquela esplanada que qualquer turista gostaria de ter e para nós era de graça.


Depois de toda a parte boa, agora vinha a parte má. Descer do edifício era impossível. A única forma era saltar para água. De lá de cima, víamos a água lá em baixo e metia muito medo. Todos arrependemos de ter aceite o desafio. E eu sempre pedindo à Deus que nos ajudasse naquele momento difícil. Ninguém dava o primeiro salto. Todos nós estávamos com medo. E de repente, eis que ouvimos um barulho na água: – “Tchiluf”. Fomos ver, era o João que tinha saltado. E o Zé de dona Montinha gritou logo: “ah infame?!”. E o João gritou de lá de baixo:-“Água está muito boa e quentinha. Podem saltar”.

E a partir daquele momento, começaram a saltar um atrás do outro como golfinhos. Somente eu e o Sílvio ficamos lá, com muito medo de saltar. O nosso medo, era se tivesse algum ferro e nos espetasse, pois tínhamos mergulhado antes e sabíamos que naquela zona tinha muitas chapas e pedaços de ferro no fundo do mar. Não quisemos arriscar. Ficamos lá, vendo os nossos amigos, lá em baixo, brincando na água e nós presos de medo, em cima da casa d’água na Laginha. O sol começou a pôr-se atrás do Monte Cara e a noite cobriu a praia da Laginha. Já não dava para ver quase nada, de lá de cima.

Foi então que ouvimos uma voz, era Didi de dona Montinha gritando:- “Ó César de dona Mari D’Vinha e Sílvio de dona Rosa, deixem de medo. Vocês têm que saltar. Se não, vão ficar aqui sozinhos na praia da Laginha”.

Naquele momento, percebemos que era “agora ou nunca”. Seguramos as mãos um do outro, fechamos os olhos, fizemos uma oração à Deus que nos protegesse e gritando, lá fomos nós num salto no estilo “bomba”. Demoramos uma eternidade no ar até chegarmos na água. Na queda batemos com o “rabo” com muita força na água. Pois, foi literalmente um salto no escuro. Foi uma dor só. Nadamos e fomos ter com os nossos amigos, que já estavam à nossa espera por muito tempo. E nós, cheios de dor no rabo, ainda fomos troçados. Rolaram na areia de tanto rir, cada vez que nos viam a andar com a mão na parte de trás, esfregando a dor do salto “bomba”.

E partimos em direção á Ribeira Bote, a nossa querida zona. Chegamos de mansinho em casa, com medo de levar uma surra da nossa mãe. Talvez preocupada com os problemas da vida, ela nem deu por nós. Ainda bem, porque já não tínhamos mais espaço para levar umas latadas, tamanho era a dor que ainda sentíamos. Tirámos a salitre, jantámos e lá fomos dormir sonhando com a Laginha.

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